Todos somos máquinas de escrever na qual falta alguma tecla, mas se nos juntarmos escreveremos palavras cujas letras ainda não estão no abecedário.
O escritor francês Andrés Trapiello, em uma conferencia na Fundação Juan March, contou um fato que me fez pensar. Estava com uns amigos no “Rastro” de Madri - possivelmente o maior mercado de rua e o mais movimentado do mundo - e viram um homem que vendia uma máquina de escrever estragada. Aproximaram-se e lhe perguntaram quanto custava. O preço lhes pareceu caro, e começaram a negociar com o vendedor aproveitando-se do fato de que faltavam várias teclas na máquina. O homem defendia seu produto: - Sim, faltam algumas teclas, mas ainda é possível escrever muitas palavras com ela – dizia. Trapiello não a comprou mas se arrependeu, porque, concluía, falta uma tecla para todos nós.
Efetivamente, falta uma tecla para todos, e apesar disso somos capazes de dizer muitas palavras. Custa-nos dizer algumas palavras: “te quero bem”, “compartilhemos”, “tome”, “não posso”, “sinto muito”, “não sei”, “necessito”, “unamo-nos” etc. Faltam-nos teclas. Aquela máquina de escrever do “Rastro” não tinha a letra “i”, a “t”, a “r” nem a “q”. Também para nós faltam teclas. Para cada um algumas diferentes. Talvez nos falte a tecla “perdão”, está estragada a tecla “obrigado/a” ou só temos a metade da tecla “consenso”. Mas, ainda podemos escrever muitas palavras apesar de nossas limitações.
Em política, na educação, no trabalho social ou na Igreja podemos escrever muito, apesar de não sermos capazes ainda de pronunciar algumas palavras. Em vez de “reconciliação” escrevemos “pior para você”; em vez de “serviço” escrevemos “a troco de que?” ou quando queremos escrever “profundidade” somente temos teclas para que se leia “distração”. Isso nos acontece constantemente. Ninguém tem todas as letras.
Todos somos máquinas de escrever estragadas e temos que aprender a viver com nossas limitações. Os participantes nos Jogos Paralímpicos podem ser nossos mestres. Uma pessoa sem braços joga tênis de mês com a raquete na boca, Outra pessoa cega bate recordes de lançamento de disco. Outra sem pernas salta oito metros. Encontramos muitos outros exemplos entre quem sofre a exclusão social. Uma pessoa sem casa e trinta anos morador de rua, sem contato com a família, consegue um apartamento, e o primeiro que faz é chamar a mãe para jantar em seu novo lar. Uma mulher prostituída consegue se libertar, recupera a confiança nos homens e se enamora. E outros exemplos vemos ao nosso redor. Um político que pode perder votos prefere apostar pelo consenso. Um arquiteto que pode ser despedido do emprego nega-se a assinar um contrato falseado em uma prefeitura. Um aluno fracassado em vários colégios ganha um premio de literatura. Se faltarem letras em nosso mundo, peçamos emprestadas para eles, que souberam perder, e aprender.
Poderíamos nos resignar a não pronunciar algumas palavras. Poderíamos cair no pessimismo e pensar que nossas sociedades nunca conseguirão escrever na realidade a palavra “Solidariedade”, “Justiça”, “Sustentabilidade”, “Sabedoria”, “Confiança” ou “Bem Comum”. Quantas teclas estão faltando à nossa sociedade para poder escrever bem!
Mas poderemos fazer algo, e melhor do que tratar para que cada um tenha todas as palavras. Faltam algumas teclas para mim, outras para você, mas se juntarmos nossos teclados poderemos escrever todas. Todos somos máquinas de escrever estragadas, mas juntos descobriremos palavras cujas letras ainda não estão no abecedário.

Por Fernando Vidal cvx

Em EntreParéntesis

0
0
0
s2sdefault