Compartilhamos com alegria esse depoimento, publicado originalmente na página do Facebook da Vida Cristiana em Cuba, que, como diz o texto, conta a história de duas Filhas de Jesus espanholas que, já na aposentadoria, disseram “sim” a Cuba.
O texto: «𝗥𝗢𝗦𝗔 𝗬 𝗘𝗡𝗥𝗜𝗤𝗨𝗘𝗧𝗔, 𝗙𝗜: 𝗘𝗟 𝗖𝗨𝗔𝗥𝗧𝗢 𝗩𝗢𝗧𝗢 𝗘𝗡 𝗟𝗔 𝗘𝗗𝗔𝗗 𝗗𝗘 𝗟𝗔 𝗝𝗨𝗕𝗜𝗟𝗔𝗖𝗜Ó𝗡», escrito por Raquel Núñez Caro, a gente compartilha aqui na íntegra.
Duas vidas unidas por “divergências”
«Contar a história de Rosa Orts Gonzalvez e Enriqueta Seva Ortuño — em linhas gerais, as duas religiosas da congregação Filhas de Jesus, conhecidas como jesuitinas — é uma tarefa que me enche de admiração.
As duas são de Elche, na Comunidade Valenciana, e têm muitas coisas em comum, ou “diosidências”: nasceram no mesmo lugar e entraram na vida religiosa em Granada no dia 24 de setembro de 1981, onde passaram juntas o postulado, o noviciado e o júniorado, as três etapas iniciais da formação em qualquer ordem ou congregação. Depois disso, nunca mais se encontraram na mesma comunidade, embora tenham desenvolvido praticamente as mesmas atividades pastorais: trabalho em áreas rurais, com comunidades ciganas e de migrantes, colégios da congregação e escolas públicas.
No entanto, um desafio que eles nunca tinham imaginado os esperava: vir para a América, como se costuma dizer na Espanha, depois de já terem atingido a idade da aposentadoria, pelo menos oficialmente falando.
O quarto voto: a disponibilidade
É aí que entra em cena o quarto voto. Na vida religiosa, existem os três votos canônicos, que todo mundo conhece: castidade, pobreza e obediência. Para algumas congregações, no entanto, pode haver um quarto voto; por exemplo, o dos jesuítas é bem conhecido: a obediência ao papa. Pois bem, as Filhas de Jesus também têm um: o voto de disponibilidade.
É por isso que, diante da proposta feita pela superiora geral, elas disseram sim, com toda a naturalidade e sem duvidar de que Cuba era o lugar onde Deus as queria nessa nova etapa. É curioso que, meses antes, a madre-geral tivesse enviado cartas às comunidades pedindo que se oferecessem para ir a Cuba; elas não responderam e foram as escolhidas. Nisso, nós, crentes, vemos a luz do Espírito Santo no discernimento dos superiores. Foi simbólico que a madre-geral tenha comunicado a decisão da nova missão no dia 3 de dezembro, dia de Francisco Xavier, o grande missionário, padroeiro daqueles que vão levar Jesus Cristo a terras distantes.
A chegada a Cuba
E em Cuba — o que parece fácil de dizer, mas nós, que vivemos nessa terra, sabemos que não é — vivemos a maior crise social, econômica, política e migratória dos últimos sessenta anos.
Rosa e Enriqueta chegaram a essa ilha no dia 28 de julho de 2023, foram recebidas em Havana pela Ir. Raquel Amigot, FI, e logo seguiram para o lugar onde as jesuitinas moram e trabalham: Bayamo. Conversando com elas, perguntei quais foram suas primeiras impressões: ao chegarem ao terminal de ônibus de Bayamo, o lugar lhes pareceu devastado pela guerra, e uma delas se lembrou das histórias que seu pai contava sobre a Guerra Civil Espanhola. No entanto, apesar disso, elas estavam felizes e confiantes.
O trabalho pastoral da Rosa e da Enriqueta
Hoje, elas realizam um amplo trabalho pastoral. A Rosa trabalha na casa de formação da diocese, da qual é coordenadora, e vai aos bairros periféricos para as celebrações da Palavra e os catecumenados de adultos. Como ela mesma diz: “também me dedico a dar um jeito nas coisas do dia a dia: filas, recados, aproveitar as horas em que tem luz e tudo o que a gente, cubano comum, sabe que faz parte de dar um jeito no dia a dia”.
Enriqueta, Enri, como todo mundo a chama, também se dedica a “dar um jeito nas coisas do dia a dia”, mas não a dela nem a das irmãs, e sim a de muitos idosos vulneráveis, para quem ela fica na fila da farmácia — muitas vezes acordando às quatro da manhã — e leva a comunhão. Acima de tudo, ela dedica-lhes seu tempo: passa um tempo com eles, com aqueles que estão mais sozinhos. Além disso, ela ajuda na catedral, no coro e em tudo o que lhe pedirem.
E, como se tudo isso não bastasse, a cada quinze dias eles sobem até Buey Arriba, um grande vilarejo da Sierra Maestra, e passam o fim de semana na paróquia, fazendo tudo o que se faz numa paróquia, ao lado do padre Karol, um missionário polonês.
Palavras que ficam
No final do artigo, cada uma delas nos deixa algumas palavras como um desejo, um conselho ou, por que não, até mesmo um incentivo.
As da Enri são:
«Viva com esperança e sempre seguindo em frente, continue caminhando sempre».
Enriqueta Seva Ortuño
E essas são as da Rosa:
«Acordem, muitas coisas só se entendem quando a gente vive: a esperança, mãos abertas para trabalhar por Cuba e reconstruir com justiça para todos».
Rosa Orts Gonzalvez
“Obrigado, irmãs, por terem vindo a esta terra para caminhar conosco; vocês são um sinal claro de que Deus não nos abandona.”
A quarta votação, hoje
O testemunho da Rosa e da Enriqueta é, no fundo, o voto de disponibilidade transformado em vida cotidiana. Quem quiser se aprofundar na origem e no sentido desse compromisso pode ler “Nosso quarto voto: disponibilidade para a missão, um documento que surgiu de um estudo feito por uma comissão do Instituto entre 1982 e 1983, que reflete sobre o que significa para as Filhas de Jesus se comprometerem a ir “a qualquer lugar do mundo” que a obediência indicar, assim como a própria Madre Cândida viveu.
O texto tá disponível pra você ler na seção de recursos do nosso site.